Famílias no poder: entenda como o sobrenome vira capital político nas eleições do Piauí e do Brasil
Transmissão de influência entre gerações é fenômeno comum nas urnas, mas especialistas e a legislação apontam a diferença entre capital político e nepotismo.

Por: Andréa Gomes – Estagiária UFPI, supervisionada pelo jornalista Nilson Santos
Em anos eleitorais, alguns sobrenomes voltam com frequência às urnas em disputas para prefeituras, Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados, Senado e governos estaduais. No Piauí e no Brasil, famílias que construíram trajetórias na vida pública ao longo de décadas continuam transmitindo influência de uma geração para outra.
No cenário nacional, clãs, assim denominado, como Sarney (MA), Calheiros (AL) e Bolsonaro (RJ) são exemplos consolidados desse movimento. No Piauí, a tradição passa por nomes das famílias Portella, Sampaio, Moraes Souza, Fonteles e Dias.
Contudo, a presença de múltiplos parentes na vida pública não significa, por si só, a prática de nepotismo. A diferença central está na forma de acesso ao cargo público: se por meio da escolha popular nas urnas ou por nomeação direta na administração pública.
Gerações na disputa eleitoral no Piauí
A presença de dinastias políticas marca a história do Piauí desde meados do século 20. Um dos casos mais duradouros envolveu as famílias Portella Nunes e Gayoso-Almendra, que exerceram forte hegemonia política no estado.
Entre as lideranças desse período destaca-se Petrônio Portella, ex-governador, senador e ministro da Justiça. Seu irmão, Lucídio Portella, também governou o Piauí e ocupou uma cadeira no Senado. A filha de Lucídio, Iracema Portella, também manteve a representação familiar ao ser eleita deputada federal.
Outro grupo consolidado é a família Sampaio. Themístocles Filho, vice-governador do Piauí, acumula décadas de mandato parlamentar, enquanto os filhos Marcos Aurélio Sampaio (deputado federal) e Felipe Sampaio (deputado estadual) representam a nova geração no Poder Legislativo.
Na base governista, a família Dias também exemplifica a continuidade do capital político. Wellington Dias construiu trajetória como deputado, prefeito, senador e governou o Piauí por quatro mandatos antes de assumir o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Seu filho, Vinicius Dias, ingressou na vida pública ao disputar vagas no Legislativo estadual, dando sequência à presença da família na política piauiense.
Em uma nova geração de gestores, o governador Rafael Fonteles traz a referência do pai, Nazareno Fonteles, ex-deputado e um dos fundadores do PT no estado. Antes de assumir o governo em 2023, Rafael construiu carreira técnica como secretário estadual da Fazenda. Nesses casos, embora o histórico familiar garanta visibilidade e acesso a redes de alianças partidárias, a consolidação dos mandatos depende do voto direto do eleitor.
Cargos comissionados e debate sobre nepotismo
Enquanto a escolha eleitoral passa necessariamente pelas urnas, a nomeação de parentes para cargos administrativos gera debates jurídicos. Um caso emblemático ocorreu na Prefeitura de Parnaíba, sob a gestão de Mão Santa (exgovernador, senador e ex-prefeito). Durante o mandato do pai, Gracinha Mão Santa acumulou o comando de pastas estratégicas na gestão municipal, como a Secretaria de Infraestrutura.
À época, as nomeações foram questionadas, mas enquadradas na exceção jurídica que permite a indicação de parentes para cargos políticos de primeiro escalão (como secretários estaduais e municipais). Posteriormente, Gracinha transicionou da administração interna para as urnas, elegendo-se deputada estadual.
A distinção entre legalidade e irregularidade na administração pública é delimitada pela Constituição Federal e pela Súmula Vinculante nº 13 do Supremo Tribunal Federal (STF), aprovada em 2008. O dispositivo proíbe a nomeação de cônjuges e parentes até o terceiro grau para cargos em comissão ou funções de confiança no Executivo, Legislativo e Judiciário, incluindo o chamado “nepotismo cruzado”.
Eleições de 2026 e o uso do poder político
Com a aproximação das eleições de 2026, a influência de grupos familiares ganha novos desdobramentos. O capital político acumulado por gerações costuma assegurar vantagens competitivas na arrancada eleitoral, como facilidade na articulação de bases municipais e palanques regionais.
Especialistas e órgãos de fiscalização alertam, no entanto, que a fronteira entre tradição familiar e o uso indevido da máquina pública exige atenção constante do eleitorado e da Justiça Eleitoral.
Diferente do nepotismo, condutas que envolvem o uso da estrutura administrativa para beneficiar candidaturas familiares configuram abuso de poder político e econômico, infração sujeita à cassação de registro e inelegibilidade.
Analisar a trajetória das famílias políticas, portanto, exige observar a origem e o percurso de cada ocupante de cargo público: identificando quem foi alçado pela escolha popular nas urnas e quem foi indicado por atos de nomeação direta.



