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Com Ciro Nogueira como alvo, entenda “teia” de envolvidos no caso Master de Vorcaro

Quinta fase da Operação Compliance Zero investiga suposto envolvimento do senador ao beneficiar o Banco Master no Congresso Nacional.

A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta quinta-feira (7), a quinta fase da Operação Compliance Zero, na qual o senador Ciro Nogueira (Progressistas) figura como um dos alvos. A investigação apura o suposto envolvimento do político em ações que teriam beneficiado o Banco Master e seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro.

A teia do Banco Master

O caso tem como pano de fundo a crise do Banco Master, instituição que enfrentou graves dificuldades financeiras em razão do vencimento de uma grande quantidade de CDBs — títulos de investimento. O banco não tinha condições de honrar os pagamentos aos investidores.

Os aplicadores que investiram até R$ 250 mil estavam cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito), mecanismo semelhante a um seguro financeiro. Segundo as investigações, cerca de R$ 50 bilhões do FGC foram utilizados para cobrir obrigações do Banco Master e de outras instituições ligadas ao grupo.

A emenda e o envelope pardo

No centro das suspeitas sobre Ciro Nogueira está uma emenda legislativa que propunha elevar o limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A aprovação da medida teria reduzido significativamente o problema judicial de Daniel Vorcaro, uma vez que investidores com aplicações acima de R$ 250 mil que não foram ressarcidos passaram a buscar reparação na Justiça — processo que pode se estender por décadas.

Empresa que pagava mesada de R$ 500 mil a Ciro dependia de Vorcaro, diz PF
Imagem da internet

A Polícia Federal descobriu, durante as investigações, um envelope pardo com a inscrição “Ciro”, contendo a minuta do texto da emenda. Segundo a PF, o documento havia sido redigido integralmente dentro do próprio Banco Master e encaminhado ao senador. A investigação apurou que o texto apresentado por Ciro Nogueira era idêntico ao elaborado pela instituição financeira. Esse achado levou as autoridades a concluir que o senador teria atuado no Senado Federal em favor dos interesses privados de Daniel Vorcaro.

Polícia Federal apreendeu uma BMW 440i e uma motocicleta Honda CB1000 em endereço ligado ao senador Ciro Nogueira em Brasília | Foto: HUGO BARRETO / METRÓPOLES @hugobarretophotoPF apreende carro da marca BMW e motocicleta durante buscas na casa de Ciro Nogueira em Brasília — Foto: Cristiano Mariz/O Globo

Mensagens e suposto pagamento

Além da emenda, a investigação revelou mensagens que indicam o pagamento de uma suposta “mesada” a Ciro Nogueira, com valores entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais. Em uma das trocas de mensagens citadas, Daniel Vorcaro menciona atraso de dois meses no pagamento ao senador, ao que um primo de Vorcaro responde que tentaria resolver a situação. 

O estalo que teria levado a PF a aprofundar as investigações sobre Ciro Nogueira foi outra mensagem atribuída a Daniel Vorcaro, enviada à sua então noiva, na qual ele afirmava: “O Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica do mercado financeiro. Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes. Está todo mundo louco.” A emenda, no entanto, não chegou a ser aprovada.

Investigação formal e restrições

A autorização para a deflagração da operação foi concedida pelo ministro André Mendonça, que citou explicitamente Ciro Nogueira como investigado. Com isso, o senador passa a ser formalmente investigado e está proibido de manter contato com outras pessoas envolvidas no processo — seja na condição de testemunhas ou de investigados. Entre os demais investigados está o próprio irmão de Ciro Nogueira, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima.

O caso também tem conexão com a CPI do INSS no Congresso Nacional. Na ausência de uma CPI específica sobre o Banco Master, integrantes da bancada governista passaram a defender abertamente a criação de uma CPMI dedicada ao caso, utilizando a CPI do INSS como via alternativa para trazer o tema ao debate parlamentar.

Os favores de Vorcaro para Ciro Nogueira fora do país

 

O banqueiro Daniel Vorcaro custeou para o senador Ciro Nogueira (PP-PI) uma hospedagem no Hotel Park Hyatt New York, onde as diárias começam em R$ 10 mil e passam de R$ 130 mil a depender do quarto.

“Segundo a representação, tais vantagens teriam compreendido hospedagens no Park Hyatt New York, despesas em restaurantes de elevado padrão e outros gastos atribuídos ao parlamentar e à sua acompanhante. Há, ainda, referência à disponibilização de cartão destinado à cobertura de despesas pessoais”, descreve o documento da Polícia Federal (PF).

De acordo com as investigações da nova etapa da Operação Compliance Zero, Vorcaro ” instrumentalizou o exercício do mandato parlamentar” de Ciro em favor de seus interesses privados por meio de pagamento de vantagens indevidas. Além de uma mesada que variou entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, a decisão relata, ainda, uma aquisição societária “com expressivo deságio”, custeio de despesas pessoais e fruição de bens de alto valor.

O Park Hyatt New York fica em frente ao Carnegie Hall, uma das salas de espetáculos mais prestigiada do país, e a um quarteirão do Central Park. Em seu site, descrevem-se como “hotel de luxo” e destacam oferecer suítes com janelas panorâmicas e banheiras de imersão em mármore.

blog cotou no site do hotel quanto seria uma viagem em junho. O quarto mais barato tem diária de R$ 10,9 mil. Ele tem até 58 m², banheiro “luxuoso” com piso aquecido e TV embutida no espelho.

Uma das suítes do Park Hyatt New York — Foto: Divulgação / Park Hyatt New York
Uma das suítes do Park Hyatt New York — Foto: Divulgação / Park Hyatt New York

As suítes intermediárias já contam com outras comodidades. Uma delas, cuja diária sai por R$ 26 mil, tem 153 m² e oferece vista para o Carnegie Hall. Tem sala de jantar para oito pessoas, sala de estar com sistema de mídia de última geração e lavabo adicional para visitantes.

A suíte Real tem diária de R$ 136 mil. Possui 214 m² Além das comodidades oferecidas nas outras suítes, essa conta com bar completo com balcão e naquetas e uma copa com mini cozinha.

Sala de estar de uma das suítes do Park Hyatt New York — Foto: Divulgação / Park Hyatt New York
Sala de estar de uma das suítes do Park Hyatt New York — Foto: Divulgação / Park Hyatt New York

A investigação não deixa claro em qual suíte o senador ficou hospedado. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso, citou a viagem como uma justificativa para as medidas cautelares determinadas contra o senador — proibição de contato com os demais investigados. O objetivo seria evitar combinação de versões e ocultação de provas.

Em nota à imprensa, Ciro negou qualquer participação em atividades ilícitas nos fatos investigados e disse estar colaborando com a Justiça.

Com informações do G1 e O Globo

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