Numa manhã de dezembro de 2017, policiais federais realizaram uma operação de busca e apreensão na casa do senador Ciro Nogueira. Era o auge da Operação Lava Jato. O senador piauiense ocupou todo o noticiário nacional: do Jornal Nacional às rádios do interior, Ciro era a manchete.
No ano seguinte, 2018, Ciro Nogueira concorria ao Senado pela segunda vez. Foi reeleito. Em poucos anos, todos os processos contra o senador foram arquivados. Seu advogado em nove inquéritos, Kakay Almeida Castro, revelou em entrevista o que teria dito a Ciro: “Inocentei você em nove processos; devia ter deixado um para você criar juízo”.
Mas parece que Ciro Nogueira tem um “chama” para problemas, para amigos enrolados e uma dificuldade em criar juízo. Na véspera de uma eleição que pode definir sua terceira entrada no Senado — o que o permitiria completar 24 anos pisando nos tapetes azuis da República —, o roteiro de manchetes negativas, acusações e suspeitas de envolvimento se repete.
Sua ligação com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tornou-se objeto de investigação da PF. Mesmo ocupando as manchetes nacionais, seu principal aliado, Júlio Arcoverde, afirmou que Ciro Nogueira não desistirá da reeleição. É uma certeza que se assemelha a outra, muito comum na política brasileira: a impunidade.

Um político experiente consultado pela reportagem — que já foi desafeto de Ciro no passado — pensa diferente. Para ele, quatro fatores pesam contra o sucesso de sua volta ao Senado.
Diferente do caso Lava Jato, cujo impacto era restrito às acusações de corrupção, o caso Banco Master e Vorcaro tem um elemento nuclear. “O Ciro conseguiu colocar todo o mercado financeiro tradicional contra ele. Ao propor a PEC que aumentaria o teto do Fundo Garantidor, ele deu um sinal claro de que continua, no fundo, sendo o mesmo Ciro que era deputado federal do baixo clero junto com o velho Severino. Não mudou nada!”, afirmou a fonte.
Segundo a fonte, Ciro Nogueira é bem tratado por seus pares no Senado, mas cerca de dois terços dos senadores não o olham com bons olhos para ele e seus movimentos. “Isso o Piauí não sabe”, concluiu.
O outro ponto visto pelo político é que, sob os holofotes da Polícia Federal, quem depende da estrutura política de Ciro Nogueira ficará receoso. “Veja bem, uma investigação começa assim: quebra o sigilo de um, leva a outro, aí quebram outros sigilos e acaba-se encontrando o que não se procurava. E na política, principalmente no interior, tem gente e coisas que não querem ser encontradas”, afirmou o veterano político com um leve sorriso no rosto.
O rosto da fonte está cansado. Testemunhou vitórias e derrotas, mas jura que não volta mais ao processo eleitoral. “Nunca mais”, disse.
Segundo a jornalista Carolina Brígido, do UOL (antigamente no Estadão), mesmo sendo ano eleitoral, a Polícia Federal não deve poupar políticos no caso Vorcaro. Traduzindo: a velha desculpa de adiar operações para não ser acusada de uso político, este ano, não cola. Imagine o impacto de buscas e apreensões em plena era do domínio das redes sociais? Sobre isso, o político afirmou: “Não vejo probabilidade de algo assim, mas, se acontecer, a repercussão será maior do que em 2017”.
Para além do caso Banco Master, a fonte classifica como “perigoso” o limite entre o lado bolsonarista e lulista pelo qual Ciro transita. “Ciro Nogueira cruzou a linha do bolsonarismo, mas está deixando o eleitor bolsonarista na dúvida sobre sua lealdade. Relaxou em vários estados, permitindo acordos com o PT. O eleitor bolsonarista não permite isso. Não de quem foi ministro de Bolsonaro”, disse.
Em pesquisas qualitativas, Ciro Nogueira é visto no Piauí como o inimigo número um do presidente Lula. Uma dessas pesquisas teria sido encomendada pelo PL, comandado pelo bolsonarista e pré-candidato ao Senado Tiago Junqueira.
É difícil prever o futuro na política, mas é possível analisar o passado. Ciro Nogueira foi eleito duas vezes senador sob o manto de Lula, em 2010 e 2018. Nas duas eleições, teve também participações importantes no governo do estado — gestões Wellington Dias —, o que ajudou muito. É a primeira vez que Ciro não tem governo, nem o apoio da Avenida Paulista. Argumenta ter prefeitos. Mas resta saber se tem o povo. O povo do Bolsonaro ou o povo do Lula?






